1. Por que está a Marinha de Guerra dos Estados Unidos em Vieques, Porto Rico?

Colônia

Depois de 400 anos sendo uma colônia da Espanha, Porto Rico passou a ser possessão dos Estados Unidos. Justamente depois da invasão, os Estados Unidos estabeleceram um governo militar na Ilha que durou até 1900. Os porto-riquenhos obtiveram sua cidadania norte-americana em 1917. Foi em 1948 que elegeram seu governador pela primeira vez. Após mais de cem anos da invasão, Porto Rico continua sendo uma colônia. Por sua posição geográfica, tem tido sempre um papel militar e estratégico para os Estados Unidos.

Expropriação dos Territórios

Em 1938, a Marinha de Guerra dos Estados Unidos começou a utilizar a Ilha-Município de Vieques para suas práticas militares. Em 1941 a Marinha começou a forçar, por meio da expropiação, os habitantes da Ilha a cederem seus terrenos. A Marinha colocou preço na terra que pertencia aos Viequenses apesar de que não era o desejo deles vendê-la. Se alguém opunha resistência à expropriação de sua propriedade, a Marinha lhe dava 24 horas para que se mudasse da mesma e aceitasse o preço que lhe era oferecido por ela. Por conseqüência, as pessoas naturais de Vieques foram deslocadas para o centro de Vieques pela Marinha, que agora ocupa aproximadamente 75% da Ilha.

2. Legado da Marinha em Vieques:

Estagnação Econômica

Vieques, com uma população de 9.400 habitantes, tem um índice de desemprego de mais de 50%. A pesca é a única indústria de verdadeira importância na Ilha, já que a Marinha norte-americana provocou o desaparecimento da cana de acúcar e da agricultura, através da expropriação das terras mais férteis, que anteriormente sustentavam uma respeitável atividade agrícola.. Sem dúvida, a pesca está seriamente afetada devido às atividades militares. Carlos Zenón, ex-presidente da Associação de Pescadores, declarou que quando os barcos da Marinha entram nas águas de cem pés de profundidade, onde os pescadores têm suas armadilhas de pesca trampas), as hélices destroem as bóias que indican onde se encontram. Quando isto ocorre, tona-se muito difícil para os pescadores encontrar suas armadilhas. Como resultado, as redes permanecen no fundo por meses, capturando assim muitos peixes, que então vêm a morrer nelas. O Departamento de Agricultura conduziu um estudo destas armadilhas e foi descoberto que uma só trampa mata aproximadamente de 4.500 a 5.000 libras de pescado em dez meses, o que representa uma séria ameaça ambiental ao frágil ecossistema marinho naquela região. Em 1977, por exemplo, a Marinha norte-americana destruiu 131 trampas. 131 Fallen.

Dano Ecológico

O efeito imediato do bombardeio em Vieques é a destruição de delicados ecossistemas na ilha, que sustenta centenas de espécies de plantas e animais que são mortos com o impacto. A longo prazo, estes bombardeios e manobras militares conduzem à séria contaminação do meio ambiente devido aos resíduos tóxicos.
Em um artigo publicado em 1988, o engenheiro e consultor ambiental Rafael Pérez-Cruz identificou três maneiras mediante as quais os bombardeios militares contaminam o ambiente viequense:

    1. as substâncias químicas na carga útil explosiva dos mísseis,
    2. partículas de pó e pedra espalhadas pelo ar como conseqüência do impacto e explosão dos mísseis e
    3. resíduos metálicos deixados pelos mísseis depois de sua detonação e a sucata utilizada para tiro ao alvo.

"Segundo informação fornecida pela Marinha, este material nunca é removido... Sob os efeitos de explosivos adicionais e da brisa do mar, os metais são oxidados ou decompostos, diluem-se na água e contaminam o ambiente de maneira acelerada", declara Cruz-Pérez em seu artigo. Também faz refêrencia a um estudo científico feito pela Marinha, em que assinala que as fontes de água potável nos bairros Isabel Segunda e La Esperanza estão contaminadas com substâncias químicas tóxicas tais como TNT, tetryl e RDX. Cruz-Pérez disse que "o estudo não explica como chegaram estas substâncias às fontes de água, localizadas a quatorze quilômetros de distância da área de tiro". Nos anos de 1970, a EPA (Agência de Proteção Ambiental) dos Estados Unidos coletou amostras do solo e do ar de Vieques. Após estudar estas amostras, a EPA determinou que o ar tinha níveis insalubres de matéria molecular e que o solo tinha níveis de ferro acima do normal.

Alta Incidência de Câncer e Outros Problemas de Saúde

O povo de Vieques sofre de alta incidência de câncer e outros problemas de saúde. Estudos conduzidos pelo Departamento de Saúde de Porto Rico têm demonstrado que no período de 1985 a 1989, a porcentagem de câncer em Vieques aumentou para 27 % acima da média de câncer em Porto Rico. Rafael Rivera-Castaño, um professor aposentado do Departamento de Ciências Médicas da Universidade de Porto Rico, tem documentado um aumento significativo de enfermidades extremamente raras como a Scleroderma, o lupus y deficiências da tireóide; e enfermidades não tão raras como a asma, que afeta particularmente as crianças de Vieques. "Como podem sofrer de asma as crianças de Vieques em uma ilha tão pequena? Os ventos que sopram vindos do mar são ricos em iodo, que ajuda a prevenir a asma. A única causa possível é a contaminação do ar. Aqui não temos fábricas, a única fonte de contaminação aqui é a Marinha", ele tem enfatizado.


3. Luta e Resistência


A Luta entre David e Golias

VOs pescadores viequenses são extremamente corajosos. Eles têm confrontado os navios de guerra em mar aberto várias vezes. Em fevereiro de 1978, o almirante norte-americano Robert Fanagan disse aos pescadores que não lhes seria permitido pescar durante três semanas. Todos os países da OTAN tinham planejado uma prática militar intensiva em toda a costa de Vieques. Carlos Zenón lhe informou que eles protestariam. "Imagine-se eu, um pescador porto-riquenho, dizendo a esse almirante da Marinha norte-americana que iríamos lhes causar problemas", recorda Zenón. Em 6 de fevereiro de 1978, fartos já da arrogância da Marinha, os pescadores de Vieques fizeram uma jogada desesperada. Como David que enfrentou o grande Golias, eles usaram fundas, estilingues e colocaram seus botes em frente aos grandes navios de guerra da OTAN. Tiveram êxito em deter essas manobras e despertar o apoio de toda a nação porto-riquenha para sua causa. Este ativismo no mar tem conseguido vitórias importantes para o povo de Vieques em sua luta contra a Marinha dos Estados Unidos.

Monte David - Acampamentos de Desobediência Civil

Depois da morte de David Sanes Rodiguez em 19 deabril de 1999, um grupo de cidadãos civis se reuniu na área do "acidente" para protestar contra os bombardeios. Este ato de desobediência civil significa um insulto frontal à autoridade ilegítima da Marinha. Em 21 de abril, un grupo de 15 barcos foi ao lugar dos bombardeios, ao qual deram o nome de Monte David, e colocaram uma grande cruz em memória de David Sanes. Monte David é um local muito perigoso devido às munições vivas no solo. Apesar deste tão grave perigo, muitas pessoas têm organizado vários protestos e manifestações detrás dos portões das áreas restritas pela Marinha norte-americana. Todos estes protestos conseguiram deter os bombardeio desde a morte de Sanes. "Eu sei que existe um grande perigo", disse Pablo Connelly, um dos civis protestando em Monte David. Ele acrescenta: "Eu sei que o risco é grande, mas os riscos valem a pena. Eu faço isto por meus filhos e por todas as crianças de Vieques, e sei que durante o tempo em que estiver aqui não cairá nenhuma bomba sobre Vieques.

No dia 8 de maio, o Partido Independência de Porto Rico (PIP) estabeleceu um segundo local de acampamento em Playa Carrucho. O presidente do partido, Senador Ruben Berrios, jurou permanecer no acampamento até que a Marinha norte-americana se retirasse ou que ele fosse preso. Um cenário de confrontação estava montado. Uma vez mais, David encarava Golias cara a cara. Vários outros Acampamentos de Desobediência Civil foram estabelecidos durante o ano de 1999 nas áreas destinadas pela Marinha à prática de exercícios de artilharia. No início de maio de 2000, havia aproximadamente 14 deles com mais de uma centena de pessoas vivendo permanentemente em tão duras condições.

Na quinta-feira, 4 de maio de 2000, às 5:30 da manhã, autoridades federais começaram a prender as pessoas que lideravam a Desobediência Civil em Vieques. Isso foi considerado como uma ofensa do Governo norte-americano contra a vontade do povo de Vieques e Porto Rico, que pegou sua terra de volta por um ano inteiro, de modo a impedir o bombardeamento e explosões na Ilha.